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Pesquisadores da Ufla desenvolvem pesquisas sobre o mercado e realizam análises virológicas de sementes de batata

Escrito por Comunicação UFLA | Publicado: Segunda, 06 Agosto 2007 21:00 | Última Atualização: Segunda, 06 Agosto 2007 21:00

Monalisa não é apenas a obra-prima de Leonardo da Vinci. Asterix e Baraka não servem somente para nomear personagens de jogos e desenhos animados. Atlantic, Bintje, Araucária, Elvira, Panda, Mondial. Todos esses nomes, na verdade, são variedades de uma velha conhecida que figura nas mesas de casas e restaurantes de todo o mundo. Originária dos Andes do Peru e da Bolívia, ela é cultivada há mais de sete mil anos. Pode ser cozida ou assada e, na forma frita, é sensação entre as crianças. Trata-se da batata, quarto alimento mais consumido no mundo, depois apenas de arroz, trigo e milho.

No Brasil, são produzidas cerca de 15 toneladas de batata por hectare, quantidade baixa, se comparada com a produção européia, que alcança a média de 40 toneladas por hectare. Minas Gerais, em especial a região sul do Estado, se destaca pela produção que, somada à de grandes produtores, como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, alcança 90% da produção nacional.

Em 2006, o Brasil registrou a maior crise do setor produtivo de batata dos últimos 30 anos. Devido à superoferta do produto, o preço chegou a ficar muito abaixo do custo de produção, ocasionando graves prejuízos aos produtores. Além disso, as chuvas de dezembro e janeiro impossibilitaram muitos bataticultores de escoarem a produção. O resultado foi o desperdício noticiado na grande imprensa, quando toneladas de batatas foram parar no lixo.

Muitos bataticultores tiveram sérios problemas com a acentuada queda dos preços, chegando a perder boa parte da produção. Foi o caso do empresário rural Nelson Hiroshi Hasui, que planta anualmente cerca de 300 hectares de batata, na cidade de Ibiá, região do Alto Paranaíba, em Minas Gerais. No ano passado, o prejuízo de Hasui ultrapassou R$ 1 milhão. Segundo ele, durante a crise, o preço da saca variou entre 8 e 12 reais. “Hoje o preço subiu um pouco, varia entre 40 e 45 por saca”, diz o empresário. De acordo com empresário, muitos produtores tradicionais estão desistindo de plantar batata porque se tornou um negócio muito instável. “É porque muitos desistiram de plantar que o preço melhorou”, explica.

Casos como o de Nelson Hasui mobilizaram a equipe do Centro de Inteligência da Batata (CIB), localizado na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em busca do desenvolvimento de uma metodologia de previsão e acompanhamento das safras de batata em Minas Gerais. “A previsão de safra será utilizada com o intuito de subsidiar os produtores em suas tomadas de decisões a respeito da produção. Na sua construção, serão aglutinadas todas as informações referentes ao setor, como intenção de plantio, volume de insumos negociados, entre outras”, explica o coordenador geral do Centro de Inteligência em Mercados (CIM), Luiz Gonzaga de Castro Júnior.

O CIB é fruto de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) e o CIM, da Ufla. Foi criado com a missão de viabilizar a captação e a produção da informação sobre o agronegócio batata em Minas Gerais, além de criar conhecimento por meio de análises e estudos e catalisar esforços estratégicos para definir políticas e ações para o desenvolvimento sustentável.

Em 2006, ano de criação do Centro, a equipe de pesquisadores do CIB, coordenada pela administradora Nádia Carvalho, desenvolveu um projeto de caracterização dos principais municípios produtores de batata nas regiões do sul de Minas, Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro. O estudo identificou tipos e variedades do produto, destacando os principais usos e percentuais de produção, caracterizando os sistemas produtivos com suas respectivas porcentagens de aplicação e apontando os canais e as margens de comercialização.

Na pesquisa, foram aplicados questionários, respondidos por técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), nos 25 municípios que mais produzem no Estado. “Levantamos informações como área, mão-de-obra e escoamento da produção, identificando para onde ela se destina, ou seja, se é para consumo in natura ou para indústria, por exemplo”, explica Nádia Carvalho.

Os resultados apontaram que o número de produtores nos municípios pesquisados fica, em sua maioria, abaixo de 50. Em alguns, localizados no sul de Minas, o número é mais alto, variando entre 100 e 330. Quanto à produção, nem todos os municípios listados plantam nas três safras do ano, que acontecem, normalmente, nos períodos de janeiro a março, abril a julho e agosto a dezembro. Grande parte da produção regional é destinada a Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória e Campinas.

A pesquisa levou em conta detalhes diversos como mão-de-obra, infra-estrutura, maquinário, sistema de irrigação e produção, insumos, plantio, colheita, cultivares plantadas, forma de gestão, entre outros. Muitos desses dados serão utilizados na pesquisa para previsão de safra, que será desenvolvida neste ano nos principais municípios produtores de batata do Estado. “Vamos levantar as potencialidades desses municípios em relação à produção de batata, ver desse potencial o que está sendo utilizado e, a partir daí, fazer um planejamento e o acompanhamento para dar suporte ao setor”, diz Nádia Carvalho.

O projeto, encaminhado à Fapemig pelo Edital Universal 2007, visa a criar uma rede de informações com os principais agentes do setor, identificando métodos de produção e potencialidades dos principais municípios produtores, a fim de orientar bataticultores e fortalecer a cultura da batata. A proposta será aplicada durante as três safras, analisando quatro fases em cada uma delas: intenção de plantio, plantio, colheita e comercialização. “Vamos acompanhar não só a questão do produtor, mas também a parte dos insumos e a do comércio”, explica Nádia.

Durante a pesquisa, inicialmente com algumas visitas de campo, serão aplicados questionários para levantamento de dados, que serão tratados e posteriormente disponibilizados para consulta no site do centro(www.cimagro.com.br/cib). “Depois que montarmos a rede de informações, o processo ficará mais dinâmico, com os próprios informantes enviando informações”, diz Luiz Gonzaga de Castro Júnior.

A proposta é ampliar a pesquisa realizada em 2006, aumentando a variedade de dados e o número de produtores envolvidos. “Pretendemos atender todos os produtores, pois muitos já ligam para o CIB pedindo informações que, para eles, são fundamentais”, conta o pesquisador. Segundo ele, a primeira pesquisa foi uma caracterização voltada principalmente para técnicos e grandes produtores. O novo projeto abrange número maior de produtores e considera todos os elos da cadeia produtiva. “Quando se monta uma previsão, não se pode considerar somente a intenção de plantio por parte dos produtores. É preciso cruzar informações entre todos os elos da cadeia para ver se de fato haverá aumento produtivo da batata ou redução”, esclarece.

Segundo afirma o coordenador do CIM, a idéia é que a previsão de safra seja um projeto contínuo, garantindo uma prestação de serviço aos bataticultores. “O lançamento do projeto vai dar suporte ao produtor e isso não pode começar e parar”, diz. Há uma grande oscilação no mercado produtor de batata por questões vinculadas à demanda. “As pessoas brincam que o produtor fica rico em um ano e pobre em outro”, comenta Gonzaga. “Se aumenta a oferta, o preço cai e podem acontecer casos extremos, como no ano passado”, diz. “Se houver a previsão de safra e o setor tentar organizar essa safra através da informação, no final não haverá questões de superação da oferta ou escassez do produto e,
conseqüentemente, não haverá grandes oscilações no preço, reduzindo o risco para o produtor.”

Da semente à indústria

A completa caracterização do sistema produtivo implica em detalhar cada uma das etapas e instrumentos do processo. No caso da batata, significa acompanhar desde a semente até a comercialização, seja na forma in natura ou processada. No Brasil, os dois extremos não têm tradição. O País importa 98% da batata processada consumida, o que inclui a forma congelada pré-frita, a batata em flocos (para sopa) e a frita industrializada. Segundo Nádia Carvalho, o consumo interno desse tipo de produto é alto, mas a produção é muito pequena. “É uma questão financeira, é preciso fazer um investimento muito alto e trabalhar com parceiros fortes para sobreviver no mercado”, afirma. “O Brasil tem mercado para a batata processada, mas muitos empresários acham que é arriscado”, diz a coordenadora do CIB.

No caso da batata semente, o número de importação também supera o de produção própria. França e Holanda são os principais exportadores para o Brasil. De acordo com Nádia Carvalho, o solo brasileiro é apropriado para plantio, mas a produção é cara. “Tem que haver toda uma estrutura para produzir e armazenar essa batata,” observa. De acordo com o bataticultor Nelson Hasui, o negócio de batata semente é ainda mais arriscado que a produção de batata para consumo. “Quando temos crise no mercado de batata, ninguém compra a semente; então, só nos resta plantar ou jogar fora”, afirma. “O prejuízo pode chegar a 100%,” complementa.

Apesar dos riscos, Hasui também investe nesse tipo de produção. Para atender às exigências do Ministério da Agricultura e Abastecimento, o empresário envia amostras ao Centro de Indexação de Vírus de Minas Gerais, localizado na Ufla, sob a coordenação da professora Antônia dos Reis Figueira. Esse é o único laboratório do gênero em Minas Gerais, desde 1986. Nele são realizados testes virológicos em batatas semente, semelhantes ao teste de HIV, capazes de detectar quatro tipos de vírus, causadores de doenças na plantação: o vírus do enrolamento (PRLV), o vírus do mosaico (PVY), o PVX e o PVS.

O vírus do enrolamento (ou PRLV) torna as folhas da planta quebradiças e enroladas, gerando tubérculos menores e menos numerosos que os de plantas sadias. Já o vírus PVY pode causar de mosaico a necrose (morte da célula), além de levar ao subdesenvolvimento da planta, sendo capaz de provocar perdas de até 100% da plantação. O PVS e o PVX são caracterizados por não induzirem a sintomas visíveis, podendo, entretanto, causar perdas significativas, principalmente se estiverem associados ao PVY e ao PRLV.

Segundo esclarece a responsável técnica pelo laboratório, Luciene de Oliveira Ribeiro, as análises são solicitadas por produtores, a fim de identificar o índice de vírus nos tubérculos que serão utilizados como sementes, seguindo exigências do Ministério da Agricultura para sua certificação e classificação. A exigência tem a finalidade de efetuar o controle de pragas e doenças e estabelecer parâmetros para comercialização. “Atendemos produtores de todo o Estado de Minas Gerais e de qualquer outro que nos procure”, diz a coordenadora Antônia Figueira. Para emitir o resultado, é realizado o teste Elisa (Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay), que permite a detecção do vírus através do uso de anticorpos. Todos os procedimentos seguidos são estabelecidos e acompanhados pelo Ministério da Agricultura. “Nosso laboratório está passando por uma reforma completa, que vai atender às exigências do Ministério para que tenhamos o ISO 17025”, diz Luciene.

Ao chegar para análise, as batatas semente que não possuem broto recebem a aplicação de uma substância denominada bissulfureto, que provoca a brotação no prazo máximo de 10 dias. Os brotos da batata são retirados, isolados em saco plástico, identificados e macerados. Com o auxílio de uma pipeta, o extrato da maceração é colocado em uma placa Elisa, onde permanece de um dia para outro na câmara fria, a uma temperatura de 4ºC.

Após as etapas finais de processamento, a placa é colocada no espectrofotômetro, aparelho que faz a leitura da placa Elisa por meio de coloração e, acoplado a uma impressora, imprime os resultados. Cada placa leva o anticorpo destinado ao vírus que se quer identificar. Quando o resultado é positivo, os orifícios da placa ganham coloração amarela, o que significa que o vírus está presente e reagiu com o anticorpo colocado. A medida é feita pela absorbância (quantidade de luz absorvida a 405 nm) da substância durante o teste. É detectada a presença de vírus, quando o valor da absorbância é igual ou maior a duas vezes a absorbância do controle sadio. “Ao fim do teste, emitimos um laudo, sendo uma cópia enviada ao produtor e outra para controle do Ministério da Agricultura”, relata Luciene.

Dicas e Curiosidades

• Nutricionistas da Food Agriculture and Organization (FAO) afirmam que uma dieta composta de batata e leite poderia suprir, em caráter de emergência, todos os nutrientes dos quais o organismo humano precisa para se manter.

• No Brasil, o tubérculo ficou conhecido por batata inglesa porque era exigido nas refeições de técnicos ingleses que trabalhavam na construção de ferrovias.

• Durante a II Guerra Mundial, a batata consagrou-se como o alimento que salvou milhões de pessoas da morte por desnutrição.

• Alguns governantes impuseram medidas para a difusão da batata na Europa, como Frederico Guilherme, da Prússia, que ordenou a amputação do nariz de todos os camponeses que não cultivassem o tubérculo.

• Ao comprar batatas, procure as firmes, com poucos olhos e sem manchas pretas.

• Quando houver brotos, remova-os. Eles produzem sabor amargo e podem conter solamina, substância tóxica capaz de causar diarréia, cãibras e fadiga.

• Conserve as batatas em local escuro e fresco, mas não na geladeira. Temperaturas menores que 7ºC transformam amido em açúcar, dando à batata um sabor adocicado e tornando-a escura ao ser frita.

• Batatas e cebolas não devem ser armazenadas juntas. Os ácidos das cebolas estimulam a decomposição das batatas, e vice-versa.

• Antes de fritar, coloque as batatas já cortadas por cerca de meia hora no congelador. Elas ficarão secas e macias após a fritura.

FONTE: CIB e Associação Brasileira da Batata (ABBA)

Ariadne Lima