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POPULARIZAÇÃO DO CONHECIMENTO

Estudo analisou 15 anos de notícias sobre ciência publicadas por três universidades mineiras e suas repercussões

Escrito por DCOM | Publicado: Terça, 07 Julho 2020 09:02 | Última Atualização: Terça, 07 Julho 2020 14:23 | Acessos: 852

 

A pandemia de Covid-19 tem demonstrado o quanto é importante o contato dos cidadãos com a ciência, para que possam decidir sobre o melhor comportamento a adotar, por exemplo, com as práticas de prevenção, ou sobre que medidas políticas defender na saúde pública. Mas, como têm sido construídos os textos jornalísticos sobre as pesquisas científicas das universidades federais de Minas Gerais, ao longo dos anos? Eles têm potencial para estimular, entre os cidadãos, o debate público e subsidiar suas decisões?

Ao buscar respostas para essas questões, um estudo da Universidade Federal de Lavras (UFLA) analisou 15 anos de publicações feitas por três universidades mineiras em seus portais na internet e a repercussão de parte desses textos na imprensa e nos projetos de lei tramitados no legislativo mineiro. Constatou-se que essas comunicações ainda têm limitações quanto a fomentar práticas dialógicas e argumentativas, que busquem envolver o cidadão com as questões da ciência, mobilizar a opinião pública e influir em decisões legislativas. 

De acordo com o estudo, entre 2004 e 2018, as publicações sobre ciência das universidades federais de Lavras (UFLA), Viçosa (UFV) e Minas Gerais (UFMG) não chegaram a 3% do total de notícias nos seus portais, mesmo sendo elas instituições de destaque na produção científica. Mas houve um aumento expressivo na soma de publicações dessas notícias a cada quinquênio (crescimento de 366% no período 2009-2013 e de 411% no período 2014-2018).  E os números são maiores em instituições que possuem uma estrutura mais adequada na Comunicação Organizacional, com uma equipe de profissionais que viabilize as produções. 

A autora da pesquisa, Ana Eliza Alvim, que concluiu o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA/UFLA), argumenta que a frequência com que um assunto aparece na mídia e o número de veículos que se envolve na divulgação são fatores que contribuem para que o tema se torne pauta do debate público. “Nossos resultados sugerem não haver ainda um planejamento no sentido de tornar recorrente a abordagem de determinados temas de pesquisa e de haver esforços conjuntos entre as universidades para publicações simultâneas que possam mobilizar maior repercussão na imprensa e na sociedade”.

Meio ambiente e sustentabilidade em destaque

O estudo também constatou que a maior parte das publicações sobre pesquisas, considerada a soma das três instituições, está ligada ao macrotema Meio Ambiente e Sustentabilidade. Na UFLA, por exemplo, de 337 matérias de pesquisa publicadas até 2018, 98 (30%) envolviam temas relacionados a sustentabiblidade.

A partir desse destaque em assuntos de meio ambiente, que ocorreu também nas outras duas universidades analisadas, foram selecionadas, para análise dos discursos, as publicações sobre pesquisas relacionadas à água e que tiveram repercussão considerável em veículos on-line. De acordo com o apurado, 25% das pesquisas tiveram uma repercussão considerável, originando no mínimo 5 outros novos textos na mídia (faixa acima da média de repercussão, que foi de 4 novos textos). A maioria (48%) teve de 1 a 4 repercussões e 23% não originaram outra publicação disponível na Internet.

Discursos que ainda podem aperfeiçoar o estímulo ao diálogo 

Foram selecionados para análise crítica os discursos de 23 textos jornalísticos. Quanto aos aspectos textuais relativos à compreensibilidade das publicações, primeira condição para haver diálogo possível com o público, os resultados mostram que há esforços de seus autores pela democratização, com o uso de expressões que buscam tornar a linguagem mais acessível e com a organização da estrutura da notícia de forma a facilitar a compreensão no momento da leitura. Porém, fragilidades ainda são identificadas, como o uso de termos desconhecidos do leitor não especializado, sem as devidas explicações, como “comunidades macrófitas” ou “agentes patogênicos”, por exemplo.

Considerando as notícias de pesquisa como argumentos apresentados à sociedade para defender determinado resultado, o estudo identificou que muitas informações são tratadas como pressuposições, como se fossem consenso para a população. Isso limita o diálogo sobre pontos que podem ainda exigir a busca de um entendimento comum. O estudo também destaca a ausência de pessoas da comunidade sendo citadas nos textos, na avaliação das pesquisas ou na contextualização do assunto. “Quando são citados, em geral não têm fala direta no texto. Como qualquer pesquisa afeta, de uma maneira ou outra, a vida das pessoas, seria importante ouvi-las, inserir no texto a sua visão da questão e posição no contexto, o que é importante para estimular outros cidadãos a sentirem-se parte do assunto e encorajados a ingressar na discussão. Se há vozes da comunidade no texto, as pessoas percebem que a pesquisa não é apenas algo de interesse do pesquisador, da Universidade, das empresas que podem se beneficiar daquele conhecimento. Priorizar a inclusão dos cidadãos seria uma forma de mostrar, pelo texto, que o tema é também de interesse mais amplo da sociedade”, explica a autora da tese.

Interrogações e contrapontos nos textos

Uma fragilidade dos discursos, como argumentos, é que, embora toda pesquisa científica seja constituída em torno de afirmações passíveis de questionamentos, poucas interrogações e contrapontos estão presentes, tanto na composição do próprio texto quanto nos comentários dos leitores.  “Esse resultado revela que estamos compartilhando as informações científicas ainda sem demonstrar ao cidadão que a ciência se baseia na construção de conhecimento, na evolução contínua do conhecimento gerado. Quando apresentamos a ciência aparentemente isenta de interrogações e de pontos por esclarecer, podemos prejudicar sua credibilidade, já que serão vários os momentos futuros pelos quais o cidadão poderá perceber que constatações científicas foram revistas”, avalia o professor José Roberto Pereira, orientador do estudo.

Efeitos na mobilização da esfera política

Foram analisados também 74 textos referentes a projetos de lei relacionados ao tema água, apresentados na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), durante o mesmo período contemplado pela amostragem de textos jornalísticos. Os resultados mostram que houve pouca interface dos projetos com as pesquisas divulgadas pelos textos jornalísticos analisados. Nenhum dos temas coincide. O ponto comum é que alguns valores de base dos argumentos pela sustentabilidade aparecem nos dois tipos de texto (imprensa e legislativo). Em apenas um dos projetos de lei, há a referência a uma pesquisa científica feita por uma universidade. Esses resultados indicam que as fragilidades dos textos como argumentos na esfera pública podem ter repercussões sobre as decisões políticas.

Base teórica e metodológica

O estudo teve como base teórica as reflexões do autor alemão Jürgen Habermas sobre a busca do entendimento entre as pessoas por meio dos melhores argumentos. A institucionalização de políticas que orientem a popularização da ciência torna-se uma proposta para aproximar essa prática do parâmetro normativo de Habermas. A metodologia de análise dos textos foi a Análise de Discurso Crítica (ADC), com base em obras de Norman Fairclough e Teun Van Dijk, incluindo a análise de argumentação de Norman Fairclough e Isabela Fairclough. O trabalho é fruto de tese de doutorado orientada pelo professor do Departamento de Administração e Economia, José Roberto Pereira, e recebeu fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). A defesa da tese foi realizada em 10 de dezembro.

Para conhecer o estudo completo, acesse a tese no Repositório Instituicional da UFLA.

INFO2

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