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Obstáculos ao diálogo entre escola e pais

Escrito por Comunicação UFLA | Publicado: Quarta, 12 Dezembro 2007 22:00 | Última Atualização: Quarta, 12 Dezembro 2007 22:00

O Estado de São Paulo, 13/12/07

Maria Alice Setubal *

O anúncio de planos de governos, a polêmica sobre o grande absenteísmo de professores da rede pública de São Paulo e a divulgação dos dados sobre exames oficiais de avaliação reacenderam o debate sobre a qualidade do nosso ensino, especialmente o da escola pública.

Embora não seja uma novidade, a participação dos pais - no apoio à gestão escolar ou no acompanhamento do desempenho de seus filhos - tem sido apontada por recentes estudos como um dos elementos fundamentais para alcançarmos a melhoria da educação no Brasil. Entretanto, essas mesmas pesquisas afirmam que a maioria dos pais está preocupada apenas com a freqüência à escola, e não com a qualidade do ensino.

Uma vez que os pais sabem quais são as melhores escolas de seu bairro e têm clareza da importância de que seu filho deva saber se expressar oralmente, ler e escrever com desenvoltura e aprender a lidar com o computador, não faz sentido afirmar que não se preocupam com a qualidade do ensino oferecido pela escola.

Se, de fato, buscamos compreender o comportamento dos pais em relação à escola, torna-se necessária uma análise mais aprofundada sobre as dificuldades de relacionamento e as diferenças de culturas entre a escola, os alunos e suas respectivas famílias, especialmente nas regiões de maior vulnerabilidade social.

As experiências do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e da Fundação Tide Setubal - tanto na implementação de projetos educacionais quanto comunitários - apontam, por exemplo, que a equipe escolar demonstra uma apatia e uma sensação de impotência preocupantes, sobretudo na rede pública dos grandes centros urbanos.

Não se trata de percorrer o caminho fácil de desresponsabilizar os pais e jogar todo o peso sobre os educadores. Muito menos de propor a reinvenção da roda, sugerindo que os pais sejam chamados mais vezes à escola. Afinal, os pais - geralmente as mães, que são as que comparecem às reuniões - estão saturados de tanto ouvir a mesma a ladainha dos educadores, que se resume a reclamações sobre o comportamento de seus filhos e de como não sabem educá-los para os padrões da vida escolar.

Também parece claro que a escola, sozinha, não resolverá todos os seus problemas. É importante que se articule com outras instâncias, como os Conselhos Tutelares, as ONGs, as bibliotecas e os clubes comunitários, para que possa dar conta da educação em tempo integral.

Tudo isso é sabido, porém não é suficiente para explicar de forma satisfatória a ausência de participação dos pais. É preciso ir mais fundo e verificar que fatores obstaculizam o diálogo com a escola. Destacarei aqui aqueles que considero decisivos.

Um primeiro aspecto a ser observado são as diferenças entre a cultura letrada e a cultura oral. A escola é por excelência o local da cultura letrada. Todas as suas atividades, especialmente as aulas, são norteadas por essa lógica, muitas vezes linear e de sacralização do texto escrito. Essa concepção acaba por impor barreiras não só aos alunos, mas principalmente aos seus pais. Isso porque a lógica da escrita pressupõe conhecimento prévio, abstração, organização do pensamento e planejamento, que não encontram eco numa população movida pela cultura oral, em que o pensamento é menos estruturado, mais extensivo, concreto e repetitivo em suas explanações.

Outro aspecto relevante diz respeito às próprias características da escola como local da hierarquia, da ordem, da presença do Estado. Portanto, da legalidade e da burocracia. São dimensões inerentes à escola. Ora, especialmente nas regiões de alta vulnerabilidade social, essa escola tem de dialogar cotidianamente com comunidades que vivem numa tênue fronteira entre o lícito e o ilícito, o legal e o ilegal - moradia sem documentação, luz, água e TV a cabo que chegam via ´gato´, vínculo empregatício precário e informal. Isso sem falarmos na convivência amedrontadora com o tráfico de drogas. Ou seja, mundos regidos por ordens opostas.

Esse cotidiano de vulnerabilidade socioeconômica dos pais nos conduz a outro aspecto de extrema importância: a descrença nas políticas públicas, a falta de esperança, a hipersensibilidade e o ressentimento decorrentes da exclusão social de que são vítimas. Daí um apego maior ao presente decorrente da necessidade de sobrevivência, na qual não cabe planejamento ou visão de futuro. Isso inviabiliza que os pais possam ouvir, concentrar-se e opinar sobre questões muito gerais, abstratas.

Por último, mas não menos importante, há uma dupla barreira relativa ao currículo. De um lado, a distância entre o que se ensina e a realidade da sociedade contemporânea, do mundo vivido pelos alunos. Do outro, a falta de incorporação ao currículo das histórias, dos valores, da arte e dos costumes da comunidade onde a escola se insere. Com isso, o aluno e seus pais não se reconhecem nem se identificam com os conteúdos transmitidos pela escola. Ao contrário, sentem-se mais uma vez excluídos, já que seu universo cultural não é levado em conta.

Esses são apenas alguns aspectos que dificultam, e muito, o diálogo entre a escola e os pais. A criação de conselhos escolares e associações de pais atuantes são essenciais, mas não suficientes para superarmos esses obstáculos. Enfrentar as questões apontadas não é tarefa simples. Entretanto, se não forem levadas em consideração, seguiremos - escola, educadores e estudiosos - a reclamar a ausência de participação dos pais sem entender o que gera esse fenômeno.

* Maria Alice Setubal, socióloga, mestre em Ciências Políticas pela USP e doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP, diretora-presidente do Cenpec, fundadora e presidente da Fundação Tide Setubal, foi consultora do Unicef na área educacional para a América Latina e o Caribe