Ir direto para menu de acessibilidade.
Atenção! Você está acessando um arquivo automático de notícias e o seu conteúdo pode estar desconfigurado. Acesse as notícias mais antigas (anteriores a Maio/2018) em nosso repositório de notícias no endereço www.ufla.br/dcom.

MEC: muitas provas, poucas melhoras no ensino

Escrito por Comunicação UFLA | Publicado: Domingo, 18 Novembro 2007 22:00 | Última Atualização: Domingo, 18 Novembro 2007 22:00

O Globo, 18/11/07

Demétrio Weber

No interior do Nordeste, alunos já fizeram Prova Brasil duas vezes e continuam sem saber ler ou fazer contas

Dois anos depois da primeira Prova Brasil, teste de português e matemática aplicado pelo Ministério da Educação (MEC) em escolas públicas de todo o país, municípios com baixo desempenho continuam em situação crítica. No Rio Grande do Norte, estado que tem o maior número de cidades entre as 20 piores notas do Prova Brasil 2005, os municípios de Viçosa e José da Penha são exemplos de que, mesmo com uma ou outra iniciativa de última hora para tentar melhorar o desempenho no exame do MEC, as escolas ainda estão longe de cumprir sua missão.

Na semana passada, O GLOBO visitou essas duas cidades.

Em Viçosa, a 400 quilômetros de Natal, o estudante Fábio Sabino de Souza, de 14 anos, já fez duas vezes a Prova Brasil. Em 2005, ele estava na 4º série do ensino fundamental da Escola Municipal Francisco Gomes Pinto. Na última segunda-feira, quando os avaliadores voltaram à cidade, Fábio permanecia na 4º série.

O pior é que ele achou o exame de 2007 mais difícil: — Tinha muita leitura.

Das 20 redes municipais com piores médias em português ou matemática, nove são do Rio Grande do Norte. Viçosa foi o município com o oitavo pior desempenho do país em português na 4º série, na Prova Brasil 2005. Metade dos alunos tirou uma nota tão baixa que não consta sequer da tabela com a descrição do nível de conhecimento de cada faixa de pontuação. Na prática, significa analfabetismo, já que o exame avalia justamente a capacidade de leitura.

Entender o que lê é o maior desafio para Fábio. O mesmo vale para seu colega Nilcivan Lopes de Oliveira, de 14 anos, outro estudante do turno da tarde, no qual são matriculados os alunos considerados problemáticos.

“Não sei ler”, diz aluno de 14 anos
Concentrado, Nilcivan leu em voz alta algumas palavras do gráfico que apresenta os resultados da Prova Brasil 2005.

Depois de muito esforço, desistiu ao deparar-se com uma frase que começava com a palavra “distribuição”: — Não sei ler.

O município de José da Penha, a 50 quilômetros de Viçosa, tirou a segunda pior nota do país em matemática, entre os alunos da 4º série. O teste mostrou que 40% dos estudantes tinham dificuldade até para contar, quanto mais para fazer cálculos.

A estudante Maria Kaliane Martins da Silva, de 11 anos, sofreu para resolver as questões de subtração, multiplicação e divisão na Prova Brasil 2007. Uma simples conta de três vezes três, por exemplo, já confunde a menina. O mesmo vale para a colega Maria Vanicleide Bezerra, de 11 anos, que foi reprovada duas vezes, uma na segunda e outra na terceira série: — Não passei por causa da matemática — diz Maria Vanicleide.

TV de 29’’ e alunos com sede
José da Penha e Viçosa têm altas taxas de repetência, alunos com idade acima do previsto, e pouca perspectiva de emprego fora da roça ou das respectivas prefeituras.

Em José da Penha, a escola não tem supervisores pedagógicos para orientar o ensino.

Tudo recai sobre os professores e a equipe da secretária de Educação, Maria do Socorro Rocha. Há 24 anos no cargo, ela parece pouco familiarizada com a burocracia do MEC. Os resultados da Prova Brasil estão na internet desde 2006, mas a secretária só soube a nota do município na quartafeira, durante entrevista ao GLOBO. Para ela, o fraco desempenho é culpa das famílias, que não acompanham o dia-a-dia dos filhos, e da falta de empenho dos professores.

— Só a escola não forma um aluno.

Já a diretora da Escola 4 de Outubro, Ana Maria de Castro Fernandes, desconhecia a nota e até mesmo se o desempenho tinha sido bom ou não. No caso da Escola 4 de Outubro, o resultado deixou José da Penha no penúltimo lugar do ranking nacional em matemática.

Segundo Ana Maria, a compra mais urgente no momento é uma caixa d’água para suprir os bebedouros. Quando falta água, as crianças ficam com sede.

O telefone da escola é um orelhão na calçada. Os recursos do Programa Dinheiro Direto na Escola, porém, foram usados para comprar uma TV de 29 polegadas e uma antena parabólica.

A diretora não sabe onde vai instalar a TV, já que todas as salas são ocupadas pelas turmas e a escola já conta com um aparelho de TV móvel, de 20 polegadas.

Na biblioteca, cujo acervo é de 2 mil títulos, outros mil livros didáticos e de literatura permanecem empacotados. A funcionária responsável diz que o MEC enviou exemplares em excesso.

Em Viçosa e José da Penha, os alunos fizeram uma espécie de cursinho preparatório para a Prova Brasil 2007. Em José da Penha, a professora Erisneide Alves de Oliveira tomou a iniciativa de buscar na internet os principais temas do exame e os distribuiu aos estudantes.

Em Viçosa, a diretora e exsecretária da Educação Crismar Cardoso de Freitas aposta que as notas em 2007 serão mais altas, pelo menos no que depender dos alunos da manhã.

Ela diz que, em 2005, foi pega de surpresa. Desde 2006, são dadas aulas de reforço na biblioteca, no mesmo turno da grade normal. Ou seja, quem faz reforço perde aula.

— Se não for assim, os alunos não vêm — afirma Crismar.

Para MEC, é difícil lidar com diferença

A secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar, diz que os professores brasileiros não estão preparados para lidar com estudantes de baixa renda, que vêm de lares com pouca escolaridade, têm idade acima do previsto e repetem de ano com freqüência. Segundo ela, é fácil ensinar a quem não tem problemas em casa e na família.

— Os professores não sabem o que os espera. A democratização do acesso à escola deu lugar a uma heterogeneidade tremenda.

A escola tem muita dificuldade de lidar com a diferença — diz ela, defendendo que a formação do docente seja uma prioridade nacional.

A secretária rechaça as críticas ao Bolsa Família por manter na escola alunos que não se dedicam aos estudos e só vão para não perder o benefício: — O Bolsa Família é para isso. Se os alunos estão ficando na escola, já atingimos o objetivo.

Maria do Pilar afirma que o plano de educação surtirá efeito num futuro próximo. Segundo ela, foram elaborados projetos para 600 prefeituras. Até o fim do ano, o número será de mil. Ela diz que ficou decepcionada ao saber que a secretária de Educação de José da Penha (RN) desconhecia os resultados da Prova Brasil: — Fico decepcionada ao ver que uma secretária não acompanha o movimento do país.

Como está a educação básica no Brasil

A Prova Brasil está sendo aplicada pela segunda vez em 2007. Até 20 de novembro, mais de 5 milhões de alunos da 4ª e 8ª série do ensino fundamental (5º e 9º anos, nas redes em que o ensino fundamental dura 9 anos) deverão fazer o teste de português, com ênfase nas habilidades de leitura, e matemática. Participam apenas escolas públicas urbanas.

O exame será aplicado em 5.499 municípios. Os resultados devem sair até junho de 2008 Em 2005, a Prova Brasil foi aplicada pela primeira vez, a 3.395.547 alunos de escolas públicas urbanas, sendo 1.974.906 da 4.ª série do ensino fundamental e 1.420.641 da 8.ª série. Participaram 41 mil escolas, com pelo menos 30 alunos na série avaliada.

Em 2007, o número mínimo de estudantes caiu para 20 por série, com o objetivo de aumentar a quantidade de escolas avaliadas

O QUE OS ALUNOS NÃO SABEM, APÓS CURSAR QUATRO SÉRIES

PORTUGUÊS
Notas abaixo de 2,73
• Analfabetos. Não entendem pequenos contos infantis, histórias em quadrinhos para crianças ou mesmo um simples convite

Notas abaixo de 3,67
• Não entendem anúncios classificados nem identificam sequer o tema central de um texto mais longo

Notas abaixo de 4,58
• Não entendem reportagens de jornal nem o sentido produzido pelo uso da pontuação

MATEMÁTICA

Notas abaixo de 2,49
• Não sabem contar

As formas de avaliação

A Prova Brasil é um dos dois indicadores que dão origem ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal novidade do Plano de Desenvolvimento da Educação lançado em abril passado pelo presidente Lula. O outro é a aprovação escolar. O Ideb serve para o governo decidir para que municípios e escolas fará repasses adicionais e dará apoio técnico.

E permite fixar metas de qualidade. Até 2021, o Ministério da Educação espera que o Brasil atinja o mesmo nível de conhecimento que estudantes de países desenvolvidos já tinham em 2003 — defasagem de 18 anos que ilustra bem o atraso brasileiro.

Enquanto a Prova Brasil avalia conhecimentos de português e matemática, o índice de aprovação indica se o ensino está beneficiando a maior parte dos estudantes ou só uma minoria.

O Ideb é o resultado da combinação de ambos: a nota média da Prova Brasil multiplicada pela taxa de aprovação.

Em 2005, o Ideb do Brasil na 4asérie do ensino fundamental (5 oano, onde o ciclo tem nove séries) era 3,8. Na rede pública, que concentra 89% das matrículas, foi 3,6. O Ministério da Educação fixou metas a cada dois anos, coincidindo com a aplicação da Prova Brasil.

Se tudo der certo, o Ideb nacional em 2021, na 4asérie, será 6.

Notas abaixo de 3,44
• Não sabem somar nem subtrair

Notas abaixo de 4,39
• Não sabem ler as horas em relógios digitais nem fazer contas de subtração com números de três algarismos, como 150 menos 125

Notas abaixo de 5,34
• Não sabem ler as horas em relógios de ponteiros nem fazer contas de multiplicação com dois algarismos, como 12 vezes 12, ou mesmo divisões simples, tipo 49 dividido por 7

RAIO X DO ENSINO FUNDAMENTAL PÚBLICO NO BRASIL (EM 2005)

14,1% dos alunos são reprovados
8,2% dos alunos abandonam a escola
32,7% dos alunos têm dois anos ou mais de idade acima do previsto para a série
36% dos professores não têm curso superior
Em média, os alunos têm 4,4 horas de aula por dia

Infra-estrutura (em 2006)

Do total de 149.513 escolas de ensino fundamental...

...apenas

6% têm laboratório de ciências
14% têm laboratório de informática
22% têm biblioteca
24% têm quadra de esportes

E outras

15% NÃO têm energia elétrica
9% NÃO têm esgoto
7% NÃO têm banheiro
3% NÃO têm água

Matrículas no Brasil (em 2006)
Ensino fundamental

Rede pública: 29.814.686 (89,5%)
Rede privada: 3.467.977 (10,5%)
TOTAL: 33.282.663

 

Atenção! As notícias mais antigas (anteriores a Maio/2018) estão disponíveis em nosso repositório de notícias no endereço www.ufla.br/dcom.
 
Portal da Ciência - Universidade Federal de Lavras
FalaBR: Pedidos de informações públicas e manifestações de ouvidoria em um único local. Sistema Eletrônico de Informações ao Cidadão (e-SIC) e Ouvidoria.