Pint of Science leva debates científicos a bares de Lavras
Nesta semana, a oitava edição do festival Pint of Science Lavras levou a ciência para bares e espaços culturais da cidade, reunindo pesquisadores em conversas abertas ao público sobre temas variados e atuais. Durante três noites, o festival ocupou o Cactus Mexican Food & Burgers, o Hora Bolas Bilhar Club e o Ao Cervejeiro Brew Shop, com temas relacionados a sono e bem-estar, tecnologia dos alimentos, arqueologia, comunicação sem fio, ecologia, cafés especiais, saúde mental e cannabis medicinal.
Ao longo das apresentações, os pesquisadores buscaram aproximar o público de assuntos científicos que normalmente circulam apenas em congressos, laboratórios e salas de aula. Em vez do ambiente tradicional da universidade, as conversas aconteceram de forma mais informal, com espaço para perguntas, comentários e troca de experiências.
Para a professora Camila Maria de Melo, que tratou das relações entre sono, alimentação, atividade física e qualidade de vida, participar do evento é uma oportunidade de mostrar ao público pesquisas desenvolvidas na UFLA que muitas vezes permanecem pouco conhecidas fora do ambiente acadêmico. “Acho que é tão difícil as pessoas terem noção do que acontece dentro da UFLA”, afirmou. Durante a palestra, ela explicou que suas pesquisas investigam a qualidade do sono e os impactos da falta de descanso sobre o cotidiano e o bem-estar. “Todo mundo hoje está preocupado em melhorar a qualidade de vida, melhorar a longevidade, ter bem-estar, viver bem”, disse.
Tecnologias capazes de revelar características invisíveis dos alimentos também fizeram parte da programação. O professor Cleiton Antônio Nunes mostrou como ferramentas analíticas ajudam pesquisadores a avaliar qualidade, composição e segurança alimentar.
Cafés especiais, qualidade da bebida e pesquisas desenvolvidas na Universidade também estiveram entre os temas debatidos durante o festival. Referência na área cafeeira, o professor Flávio Meira Borém destacou a relevância internacional das pesquisas realizadas na UFLA. “A UFLA é referência mundial em café. As pessoas não têm conhecimento do peso que a UFLA tem mundialmente. É importante levarmos a ciência para espaços como esses na cidade”, afirmou. Em sua participação, ele trouxe diferentes questões relacionadas ao universo do café, incluindo qualidade, preparo e benefícios à saúde.
Questões ligadas à arqueologia e à reconstrução histórica também despertaram a curiosidade do público. O doutorando Gabriel Arriel Pedrozo explicou como pesquisadores interpretam vestígios do passado para compreender modos de vida antigos na região de Lavras. “A Arqueologia envolve muitas questões misteriosas e esses gaps abrem brechas para narrativas e interpretações. Mas essas questões misteriosas são mais pé no chão do que no cinema, claro”, comentou. Ele explicou que, mesmo com o uso de modelos sofisticados e computacionais, não existe exatidão absoluta na tentativa de reconstruir o passado. “É um sistema aberto, diferente de uma questão matemática. A arqueologia se trata do estudo da vida das pessoas, das relações de comportamento social, dos aspectos culturais tendo por base os objetos e seus ambientes.”
Os avanços das tecnologias de transmissão de dados e os desafios das comunicações sem fio também entraram na programação do festival. O professor Jonas Henrique Osório apresentou possibilidades ligadas ao futuro das telecomunicações e mostrou como essas pesquisas impactam diretamente o cotidiano.
O professor Paulo dos Santos Pompeu compartilhou pesquisas sobre ecologia de peixes e o uso de isótopos estáveis para compreender hábitos alimentares de espécies aquáticas e impactos ambientais nos rios. Segundo ele, o festival cria oportunidades para que pessoas que normalmente não acompanham conteúdos científicos possam conhecer pesquisas produzidas na universidade. “Isso é importante para sabermos mais sobre o funcionamento dos rios, para entender melhor os nossos impactos ambientais e como fazer para preservar a nossa grande biodiversidade de peixes”, explicou.
Música, física e tecnologia também se encontraram em uma das palestras do evento. O professor Thomaz Chaves de Andrade Oliveira explicou princípios científicos envolvidos na produção sonora e na evolução dos equipamentos utilizados no rock.
Os diferentes usos científicos, medicinais, alimentícios e industriais da cannabis também estiveram entre os temas debatidos no festival. A professora Vanessa Cristina Stein ressaltou o potencial do evento para tratar assuntos considerados controversos em um ambiente mais acessível. “Esse evento é uma oportunidade maravilhosa para poder trazer o conhecimento científico em uma linguagem mais acessível para as pessoas, em um ambiente super agradável”, afirmou. Ela destacou ainda que discutir o tema exige aprofundamento e diálogo. “É um tema controverso, que traz tantas dúvidas, pessoas que gostam muito, pessoas que são muito contra, mas que precisam se aprofundar mais para entender mais sobre ele.”
As pressões enfrentadas pelo organismo feminino e os impactos do estresse sobre a saúde também fizeram parte da programação. O professor Bruno del Bianco apresentou reflexões sobre a complexidade do organismo feminino, abordando os efeitos da pandemia no ciclo menstrual, além do uso de esteróides e anabolizantes. Ele destacou a sensibilidade do corpo feminino a diferentes fatores que podem provocar alterações, inclusive relacionadas à fertilidade. Segundo ele, a proposta da palestra não foi discutir padrões estéticos, mas refletir sobre as pressões fisiológicas enfrentadas pelo organismo feminino.
A estudante Rebeca Colen, do curso de Engenharia de Materiais, contou que se interessou pelo tema justamente pela importância de ampliar o olhar sobre os cuidados com a saúde. “Na correria do dia a dia, acabamos não prestando atenção em questões de saúde como deveríamos. E a saúde da mulher, muitas vezes, é negligenciada. Achei que seria uma oportunidade de entender melhor sinais que, às vezes, normalizamos, mas aos quais devemos estar atentos para cuidar mais da nossa saúde”, afirmou.
A relação entre ciência e cidade também apareceu nos relatos do público. O doutorando Pedro Zeda, participante do evento, afirmou que já acompanha o festival há vários anos e considera a iniciativa importante justamente por tirar o conhecimento científico dos espaços tradicionais. “Lavras gira muito em torno do contexto universitário e muitas vezes o conhecimento fica ilhado lá dentro. Isso aqui é uma forma que a gente tem de conseguir manter esse contato de uma forma mais facilitada”, comentou. Segundo ele, o formato mais informal facilita o diálogo e aproxima pessoas que normalmente não frequentam espaços acadêmicos.
O estudante de doutorado Matheus Felipe Souza Oliveira destacou que o Pint of Science ajuda a democratizar o acesso ao conhecimento científico justamente por levar discussões complexas para ambientes informais. Para ele, a linguagem acadêmica muitas vezes cria barreiras para parte da população, enquanto iniciativas como essa tornam os temas mais acessíveis. “Nestes ambientes descontraídos, as pessoas se sentem à vontade para expressar dúvidas, mesmo que pareçam simples, promovendo um entendimento mais amplo e desmistificando conceitos científicos”, afirmou.
A organização local do festival foi coordenada pelos professores Karen Luz Burgoa Rosso e José Alberto Casto Nogales Vera, com apoio de docentes, técnicos, estudantes e colaboradores envolvidos na divulgação científica em Lavras. Segundo eles, a edição deste ano reforçou a consolidação do Pint of Science na cidade e mostrou que existe interesse crescente do público e dos próprios estabelecimentos em receber atividades ligadas à ciência. “Os proprietários dos espaços ficaram muito satisfeitos e demonstraram interesse em receber novas ações científicas em dias de maior movimento, como quintas, sextas e sábados. Isso mostra que a ciência pode ocupar a cidade, circular em ambientes informais e criar encontros significativos entre universidade e sociedade”, afirmaram. Os organizadores também destacaram o entusiasmo em continuar levando atividades científicas para diferentes espaços da cidade por meio do projeto “Os Trem da Ciência”, iniciativa de divulgação científica criada para fortalecer a conexão entre universidade e comunidade.
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