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Arte e cultura

Na UFLA, espetáculo “Homem-Bomba” provoca reflexões sobre a dualidade humana

Escrito por Cibele Aguiar | Publicado: Sexta, 04 Setembro 2026 10:05 | Última Atualização: Sexta, 04 Setembro 2026 11:30

Inspirado em um dos grandes clássicos da literatura mundial, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson, o espetáculo Homem-Bomba foi apresentado nessa quinta-feira (3/9), no Salão de Convenções da Universidade Federal de Lavras (UFLA). A apresentação gratuita integrou a programação dos 118 anos de história da Instituição e trouxe ao palco questões que atravessaram os séculos: as contradições humanas, os limites entre razão e impulso e a responsabilidade de cada indivíduo diante de suas próprias escolhas.

Com dramaturgia de Cynthia Paulino, direção e atuação de Luiz Arthur, o monólogo parte da essência da obra publicada por Stevenson em 1886 para construir uma narrativa contemporânea. Se no clássico o respeitado médico Henry Jekyll tenta separar de si os impulsos que considera sombrios, dando origem a Edward Hyde, em Homem-Bomba essa dualidade serve como ponto de partida para uma pergunta que se volta diretamente para o público: o que fazemos quando reconhecemos a existência de nossas próprias sombras?

“Temos muito o hábito de apontar o dedo para o outro, mas esquecemos de olhar para dentro. O monstro está aqui dentro, a sombra, a escuridão está aqui dentro. A gente precisa aprender a lidar com ela, a enxergá-la exatamente para exercitar o livre-arbítrio. Se eu tenho conhecimento, se eu tenho consciência do meu monstro, o que eu vou fazer com isso?”, provoca Luiz Arthur.

Um clássico que continua contemporâneo

Para Luiz Arthur, a violência é um dos elementos que tornam esse diálogo particularmente contemporâneo. Trechos e situações da obra original encontram correspondência em acontecimentos que continuam presentes no cotidiano. “A violência está aí, está escancarada. [...] Tudo que é dito ali no palco faz conexão com os nossos temores, com os nossos receios e com a esperança também”, afirma.

O espetáculo vai além da narrativa de O Médico e o Monstro, ampliando a discussão sobre a dualidade humana. A dramaturgia incorpora referências a outras obras e autores, entre eles William Shakespeare, Franz Kafka e Edgar Allan Poe, além de citações bíblicas. O repertório conduz a questionamentos sobre identidade, escolhas e sobre a tensão entre aquilo que cada pessoa deseja ser e aquilo que dela se espera.

“Quem eu vou ser? Eu vou ser quem eu quero ser ou vou ser quem as pessoas querem que eu seja?”, questiona Luiz Arthur ao sintetizar algumas das inquietações que atravessam a montagem. O ator ressalta que o espetáculo não pretende oferecer respostas ou conduzir a plateia a uma conclusão determinada. Ao colocar em cena comportamentos extremos, conflitos e diferentes dimensões da condição humana, a proposta é entregar as questões ao público. “A personagem coloca para a plateia e espera que ela saia reflexiva, pensando: ‘E agora? Eu tenho conhecimento na mão, o que eu vou fazer?’”

Arte e conexões

A apresentação em Lavras integra uma circulação de Homem-Bomba por 26 cidades. Estreado em 2018, na Mostra Solos e Monólogos do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, o espetáculo acumulou reconhecimentos ao longo de sua trajetória. No 10º Festival Nacional de Teatro do Piauí, em 2022, recebeu os prêmios de Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Texto. Em 2024, Luiz Arthur foi premiado como Melhor Ator no 8º Festival Nacional de Teatro de Passos e Região.

A chegada à UFLA teve, segundo Luiz Arthur, um significado especial pela possibilidade de apresentar o trabalho em um ambiente dedicado ao conhecimento, à educação e à reflexão. “Estou chegando em Lavras com ineditismo e muito alegre, porque estou na UFLA, que é um espaço de conhecimento, de educação, de reflexão. E o Homem-Bomba tem muito disso.” 

A turnê conta com patrocínio da Cemig, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o que possibilita a realização gratuita das apresentações. Para Luiz Arthur, a circulação contribui para ampliar o acesso ao teatro e permite que a montagem alcance diferentes públicos e localidades. Na UFLA, a articulação para a realização do espetáculo foi feita por Lucas Rocha, coordenador do Centro de Cultura, da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Praeec). 

A entrevista com Luiz Arthur foi feita pela estudante de Biologia, Rebeca Braga Ranieri, integrante do grupo Teatro Construção. 

 

 

 

 

 

 
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