Estudantes da UFLA se unem para aprender sobre inteligência artificial e incentivar outras mulheres a ingressar na área
A inteligência artificial e a computação fazem parte de um campo em que as mulheres ainda são minoria. Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), estudantes de Ciência da Computação e Sistemas de Informação se organizaram para aprender mais sobre essas tecnologias e incentivar outras mulheres a ocupar esse espaço. Nesses cursos, apenas 19% dos estudantes matriculados atualmente são mulheres, segundo o painel de Perfil dos Estudantes Ativos dos Cursos de Graduação da UFLA.
Criado no início de 2025, por iniciativa da professora Elaine Cecília Gatto, o Núcleo de Estudos Girls reúne estudantes interessadas em inteligência artificial e na ampliação da participação feminina na tecnologia. A iniciativa combina formação acadêmica, troca de experiências e ações voltadas a meninas que ainda estão descobrindo as possibilidades de seguir uma carreira na área.
A proposta dialoga com o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2026, “Ciência Delas”, que destaca o protagonismo das mulheres na ciência e na tecnologia.
“A motivação principal foi juntar principalmente esses dois temas: o aprendizado de inteligência artificial e o fortalecimento da liderança feminina nessa área de tecnologia”, explica Rafaella Moreira, integrante do grupo.
Para as estudantes, participar do Núcleo é uma oportunidade de aprofundar conhecimentos que nem sempre podem ser explorados em detalhes durante a graduação. Os encontros também permitem compartilhar experiências e desenvolver habilidades importantes para a formação acadêmica e profissional.
“Não tem como, em quatro anos, se aprofundar em tudo. Então, o Núcleo de Estudos é uma forma de você se aprofundar naquele conhecimento específico”, destaca Thaís Giovanna Lopes.
As atividades também aproximam as estudantes dos pilares da Universidade. “Nosso trabalho ultrapassou a sala de aula tradicional, buscamos a extensão e a pesquisa”, conta Thaís. Ela também ressalta a contribuição do grupo para o desenvolvimento da comunicação e do trabalho em equipe.
Mas a experiência não se limita ao aprendizado técnico. Para algumas integrantes, encontrar outras mulheres em um ambiente no qual elas ainda são minoria fez diferença na maneira de vivenciar a graduação.
Uma das integrantes conta que ingressou em Ciência da Computação em uma turma com cerca de 40 estudantes, na qual havia apenas três mulheres. A pouca presença feminina contribuiu para uma sensação inicial de insegurança, que começou a mudar com a aproximação de outras meninas.
“Isso me ajudou muito, principalmente psicologicamente, porque abriu minha mente de que eu não estava sozinha ali”, conta Luiza Mara Fernandes Costa.
A convivência também permite reconhecer experiências em comum. “Às vezes, a gente vê que um problema que está passando não é só nosso, que outras meninas também passam por isso”, relata Luiza.
Luiza lembra a insegurança que sentiu ao chegar à Universidade, em um ambiente com poucas mulheres. Para ela, o grupo passou a representar também um espaço de amizade e apoio, no qual é possível compartilhar dúvidas e experiências com pessoas que enfrentam situações semelhantes.
Referências que começam na escola
Dentre as ações promovidas pelo grupo destaca-se o Ada Lovelace Day, um projeto global pensado para incentivar alunas de 10 a 12 anos a explorarem a ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). A atividade busca criar um espaço integrador e motivador, permitindo que jovens garotas descubram possibilidades de atuação e fortaleçam a liderança feminina nesses segmentos.
O nome homenageia Ada Lovelace, reconhecida como uma das pioneiras da programação. Para as integrantes do grupo, apresentar a trajetória de mulheres que contribuíram para a ciência e a tecnologia é uma forma de ampliar as referências disponíveis para as meninas.
“A maioria das pessoas conhece o Alan Turing, mas não conhece a Ada Lovelace”, destaca Thaís.
A proposta é mostrar que o interesse por tecnologia pode se transformar em uma possibilidade de formação e carreira. Ao aproximar as meninas da Universidade e das estudantes que já trilham esse caminho, a iniciativa procura tornar esse futuro mais próximo e possível.
“Quando meninas não encontram mulheres em determinadas áreas, podem ter mais dificuldade para se imaginar naquele ambiente. Apresentar outras trajetórias é uma maneira de ampliar essas referências desde cedo”, ressalta Thaís.
Mais mulheres na produção de tecnologia
Para as integrantes do Núcleo, ampliar a participação feminina na tecnologia também significa questionar ideias que ainda associam determinadas áreas profissionais aos homens.
“A participação de mulheres dentro da tecnologia realmente alavanca isso. Mostrando que a gente também consegue fazer, a gente também é capaz e suficiente”, afirma Luiza Nascimento Costa.
Dar visibilidade às contribuições femininas é parte do trabalho de mostrar que as mulheres também produzem conhecimento, desenvolvem projetos e podem ocupar posições de liderança na tecnologia.
Para as estudantes, essa participação precisa aparecer em diferentes espaços, desde a apresentação de projetos e a realização de cursos até as palestras e outras atividades de formação.
“Se a gente consegue se inserir nesse meio e levar maior representatividade, maior visibilidade, mostrando que a gente também está ali numa posição de liderança, a gente também dá conta, a gente é capaz”, afirma Luiza Mara.
Uma rede que ultrapassa a UFLA
O grupo também integra o programa Meninas Digitais, da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), iniciativa voltada ao incentivo à participação feminina na área de Computação.
A participação amplia o contato com outras iniciativas e estudantes de diferentes lugares do País, além de possibilitar o acesso a cursos, minicursos, palestras e mentorias, voltadas à formação e à carreira.
Para as integrantes, a rede representa uma oportunidade de trocar experiências e encontrar apoio para seguir na área. A importância desse contato também aparece em atividades realizadas na própria UFLA.
Durante o evento UFLA de Portas Abertas, por exemplo, algumas meninas interessadas nas áreas de exatas procuraram o grupo para perguntar sobre o curso de Computação, as atividades desenvolvidas e as possibilidades de atuação profissional. Essa aproximação é um dos resultados que as estudantes esperam alcançar.
Ciência também é lugar de mulheres
A trajetória do grupo da UFLA reforça uma mensagem que ganha ainda mais força durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que neste ano coloca em evidência o protagonismo feminino na ciência.
Ao falar sobre inteligência artificial, computação e formação profissional, as estudantes também estão discutindo quem ocupa os espaços de produção do conhecimento e quem se reconhece como parte deles.
O desafio, para elas, não é apenas trazer mais mulheres para a tecnologia, mas criar condições para que elas permaneçam, desenvolvam suas habilidades, ocupem posições de liderança e sejam reconhecidas por seu trabalho.
“É fazer a diferença na vida de outras meninas. E fazer elas pensarem de uma forma diferente”, resume Rafaella Moreira.


