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Especial Música

A voz do caipira: pesquisa da UFLA estuda a música sertaneja como reforço da identidade da gente do campo

Escrito por Samara Avelar | Publicado: Quarta, 03 Outubro 2018 16:16 | Última Atualização: Quarta, 03 Outubro 2018 16:31 | Acessos: 803
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Eduardo estuda como a música caipira reforça a identidade de quem vive no campo

“Eu nasci naquela serra num ranchinho beira chão / Tudo cheio de buraco donde a lua fai clarão/ Quando chega a madrugada lá no mato a passarada principia um baruião.” Os versos da canção “Tristeza do Jeca”, de Tonico e Tinoco, retratam a vida no campo de forma expressiva e singela, uma das características próprias da música sertaneja – estilo que vem se transformando ao longo dos anos devido ao processo de urbanização, à evolução da indústria fonográfica e às mudanças na própria sociedade.

Compreender como esse estilo musical tem se relacionado com a identidade das pessoas do campo ao longo dos anos é objeto de estudo de uma pesquisa desenvolvida no Departamento de Educação da UFLA (DED/UFLA), em um projeto de iniciação científica do estudante Eduardo Oliveira Moreira* sob a coordenação do professor Celso Vallin. O estudo, ainda em andamento, traça um histórico da música caipira e sertaneja no Brasil e tem buscado levantar, junto a pessoas que têm afinidade com o estilo musical – chamados de atores –chave-, aspectos que reforçam a identidade de quem viveu ou ainda vive no campo.

Uma das impressões percebidas junto aos entrevistados, segundo os pesquisadores, é de que o estilo sertanejo da atualidade, conhecido como sertanejo universitário, se distanciou muito da música caipira ou sertanejo de raiz. Foram citados como referência sertaneja artistas como Pena Branca e Xavantinho, Liu e Leo e Trio Parada Dura, entre outros. Nesse ponto, Eduardo reforça as particularidades do sertanejo de raiz, que vão desde a origem do instrumento, sua afinação, até o dialeto caipira. “A música caipira tem como instrumentos base a viola e o violão e é cantada em duas vozes, em um dueto de terça. Nas letras, o retrato da vida no campo é uma característica essencial, com aparição rotineira de objetos como berrante, o saco de estopa, a enxada. A maneira de falar também é própria, com a simplificação das palavras e pronúncias do dialeto caipira, onde há, inclusive, rotacismos, como a pronuncia de ‘frô’ ao invés de ‘flor’”, explica. A religiosidade, as histórias de viajantes, o trabalho com a agricultura e pecuária, a família e as paixões também são elementos bastante presentes na música sertaneja.

Identidade camponesa

A música caipira reforça a identidade da pessoa que vive no campo e em contraposição aos modismos do meio urbano. “As diferenças e conflitos entre urbano e rural também são levadas nas canções. O caipira é muitas vezes zombado e invisibilizado pelas pessoas da cidade. Por meio da música sertaneja, ele passa a ter a palavra pública, consegue mostrar e afirmar sua identidade, inclusive nos meios de comunicação”, ressalta o professor Celso Vallin. Essa diferença entre urbano e rural é muito presente nas músicas caipiras, a exemplo da canção “Mágoa de Boiadeiro”, de Pedro Bento e Zé da Estrada, que mostra o campo sendo desvalorizado à medida que os centros urbanos avançam.

As diferentes figuras da pessoa do campo também são retratadas de forma regionalizada, representando do vaqueiro ao sertanejo semiárido, por exemplo.  “O aspecto territorial também é caracterizado nas letras e ritmos, e originou diferentes estilos dentro da música caipira, como o cururu, a toada e o pagode, e diferentes afinações dos instrumentos (cebolão, rio abaixo/rio acima), que variam de acordo com as regiões e grupos de origem”, reforça Eduardo. 

Como tudo começou

A música foi uma das estratégias usadas pelos padres jesuítas no processo de catequização dos indígenas durante o período de colonização do Brasil, ainda no século XVI. Os portugueses trouxeram a viola de Bragança e introduziram canções em busca de mais proximidade com os nativos, o que deu início a construção da música caipira, tendo como um dos primeiros gêneros o cateretê, segundo Eduardo. “O instrumento e as músicas foram assimilados pelos indígenas e também pelos negros, durante o período da escravidão, o que resultou em uma espécie de miscigenação cultural de matriz musical. Nesse processo, tivemos vários estilos sendo criados, como a congada, de influência quilombola, e o cateretê, de origem indígena. Esses estilos passaram a ser construídos localmente, regionalmente e até nacionalmente”, conta o pesquisador.

A partir da década de 20, com o artista e jornalista Cornélio Pires, a música caipira começa a ser introduzida na indústria fonográfica. Esse processo resultou em ganhos e perdas: ao mesmo tempo em que disseminava e popularizava as canções e a vida da pessoa do campo, exigia uma mudança significativa em sua narrativa. “Os primeiros discos de vinil limitavam o tempo das músicas. As canções caipiras, que antes contavam longas histórias ‘e causos’, precisaram ser adaptadas para um formato reduzido. Mas ainda preservavam o caipira como protagonista e compositor, em uma construção popular”, explica Eduardo.  

Com uma forte inserção na indústria fonográfica a partir da década de 60, a música sertaneja passa a ter um caráter mais comercial, com novos arranjos, instrumentos e influência do estrangeirismo, como a música country americana. Para os pesquisadores, foi a partir desse processo que a matriz musical caipira teve sua maior perda. Celso reforça, ainda, a dificuldade de acesso aos novos aparatos pelo caipira, o que dificultava a composição popular. “Antes bastava a viola, um instrumento de fácil construção e acesso que, embora difícil de tocar, contava com uma transmissão do conhecimento entre as gerações. A incorporação de novos equipamentos e sintetizadores reduziram o acesso popular. A praticidade de se ouvir músicas pelo rádio também contribuiu para a perda do caráter de sociabilidade da música caipira, reduzindo aqueles momentos em que as famílias e grupos de pessoas se reuniam para ouvir as modas do violeiro”, explica o professor.

A evolução do estilo e o sertanejo universitário

Ao longo do tempo, outras derivações da música caipira começaram a aparecer. Tendo a viola como instrumento base, artistas como Almir Sater e Ivan Vilela criaram estilos próprios originados na música caipira, mas com valorização da vida no campo e com relativo espaço nos meios midiáticos.

Já o sertanejo universitário, como é caracterizado um dos estilos musicais mais ouvidos da atualidade, surge para atender o mercado fonográfico. “Apesar de ter o seu valor musical e comercial, o sertanejo universitário não tem a mesma preocupação de retratar a vida no campo e transmitir a cultura do caipira como no sertanejo raiz. Dentro dos estúdios, a composição das canções parte, muitas vezes, de um processo ‘de cima para baixo’, onde o artista e compositor não têm tanta liberdade como em décadas atrás, quando o compositor costumava ser o próprio caipira”, explica Eduardo. 

Para o Celso, apesar de amplamente utilizado, o termo sertanejo universitário não seria o adequado para se referir ao estilo atual. “Ele surgiu como uma forma de distinção entre os estilos musicais, mas apresenta dois pontos passíveis de crítica: não é universitário, pois não surgiu só dos universitários, e pode ser carregado de preconceitos, simbolizando uma elevação de categoria – o universitário acima do caipira”, frisa.

Apesar das mudanças, os pesquisadores concordam que ainda há espaço para a música caipira em rádios e festas locais e reforçam sua importância para a preservação da identidade da pessoa do campo. “A música caipira é construída popularmente e por isso é tão variada em ritmos, tipos de viola, dentre outros elementos, constituindo-se, dessa forma, em um processo e ritmo bem diferente do que se percebe na indústria fonográfica. É muito mais representativa do caipira. Vale enfatizar que o trabalho das rádios locais e dos festivais tem sido fundamental para preservar suas matrizes, culturais e musicais”, conclui Eduardo.

 
*O estudante Eduardo Oliveira Moreira cursa atualmente o 4º período de Ciências Biológicas na UFLA, mas continua a desenvolver a pesquisa, que teve início quando cursava Pedagogia no Departamento de Educação (DED).
 

 

Reportagem: Samara Avelar

Edição do Vídeo: Luís Felipe Souza Santos -  bolsista Dcom/UFLA  

 
 

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