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Letramento Racial Crítico

Pesquisa realizada na UFLA tem por objetivo minimizar ações racistas em sala de aula

Escrito por Greicielle Santos | Publicado: Terça, 23 Junho 2020 17:08 | Última Atualização: Quarta, 24 Junho 2020 09:02 | Acessos: 997

Por uma formação de professores e estudantes que vá alem de datas comemorativas

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Há mais de dez anos, as leis 10.639/03 e 11.645/08 estabeleceram diretrizes e bases da educação nacional, incluindo no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e cultura afro-brasileira e indígena”, de forma a valorizar a contribuição da população negra e indígena para a formação do Brasil. A temática é proposta de maneira a perpassar todas as disciplinas do currículo da educação básica, que inclui o ensino fundamental e médio. 

Com o objetivo de minimizar ações racistas em sala de aula e contribuir para que professores não se tornem omissos diante dessas atitudes, a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Lavras (UFLA) Elivan Aparecida Ribeiro, com orientação da professora do Departamento de Estudos da Linguagem (DEL) Helena Maria Ferreira, propôs uma análise que envolveu estudantes e professores de Lavras (MG) e estudantes do curso de Licenciatura em Letras Português/Inglês da UFLA, vinculados ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), que tem por objetivo o incentivo e valorização do magistério, por meio de ações em escolas dos municípios, no caso, em Lavras, o PIBID atua na rede pública de ensino em diversas áreas do conhecimento.

Entre as atividades realizadas pelo grupo, esteve a análise do gênero textual meme, que, de acordo com a professora Helena Maria Ferreira, “em tantos momentos reforça um estereótipo negativo da população negra, causando risos por parte das pessoas que têm acesso, e perpetua uma visão que reduz e subalterniza esta população”.Para colaborar e atender às demandas propostas pelas leis citadas acima, pesquisadores têm realizado projetos que capacitam professores e estudantes para uma formação que vá além das ações promovidas em datas comemorativas relacionadas ao tema. A intenção é proporcionar reflexões e mudanças na consciência dos envolvidos por meio do Letramento Racial Crítico.

O que é o Letramento Racial Crítico?

O Letramento Racial Crítico tem como premissa colocar a raça como ponto de partida. No Brasil, a professora Aparecida de Jesus Ferreira, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG),é a principal pesquisadora sobre essa temática. Ela propõe uma formação para professores de línguas, com uma abordagem que não foque apenas o conteúdo, mas sim uma formação social e reflexiva de professores e estudantes com uma visão étnico-racial.

O interesse dos pesquisadores pelo estudo do tema partiu da percepção do fato de que o racismo ocorre no ambiente escolar e, em muitos momentos, passa despercebido, ou não tem a atenção necessária por parte dos professores, sendo apenas considerado mais uma “brincadeira de mau gosto” em sala de aula.

As análises incluem diferentes etapas, entre elas as rodas de conversa voltadas para a formação docente e para as questões étnico-raciais. Além disso, houve uma intervenção por meio da oficina de formação denominada “A pele que habito e a formação docente”, com estudantes do curso de Licenciatura em Letras Português/Inglês participantes do Pibid. Os estudantes em formação docentedo Departamento de Estudos da Linguagem (DEL/UFLA) também participaram de um minicurso com carga horária de 40 horas, visando contribuições no que diz respeito a temáticas étnico-raciais e reflexões críticas sobre atitudes observadas durante o período no qual eles estavam inseridos em sala de aula pelo Pibid. 

Além da formação para os futuros professores, notou-se urgência em trabalhar com os profissionais que já atuam nas escolas, pois muitos dos educadores já se apresentam para a carreira docente com uma visão de mundo advinda de outros lugares, e “sem querer”, reforçam ou naturalizam ações racistas em sala de aula. “Porfim, compartilhamos o conhecimento com os estudantes das escolas vinculadas ao Pibid, como intervenção e socialização de troca de narrativas sobre  experiências que enfatizam o racismo e os discursos racistas, tanto o racismo estrutural quanto o institucional que ainda se faz presente em escolas públicas brasileiras, esse que deve ser combatido para que se alcance uma proposta de educação igualitária e cidadã”, ressalta a pesquisadora Elivan Aparecida Ribeiro.

Professora Helena Maria Ferreira e Pesquisadora Elivan Aparecida Ribeiro

Transição de saberes

Percebe-se que há uma troca de saberes entre professores e estudantes que acaba indo contra a realidade brasileira, perpetuando a ideia de que há uma democracia racial no Brasil, e mantendo o racismo de uma maneira “velada”; porém, ao dialogar com estudantes que se declaram negros, ou seja, pretos ou pardos, a pesquisa mostra que há inúmeros relatos de atitudes racistas vindas por parte de professores em sala de aula. Logo, o Letramento Racial Crítico busca enfatizar, no currículo de formação dos professores, disciplinas que proponham uma reflexão crítica sobre a formação do Brasil no que diz respeito à valorização das contribuições de povos africanos que passaram pelo processo de escravização no País. 

A pesquisadora Elivan Aparecida Ribeiro comenta que discursos são veiculados e reforçados com a ideia de que tudo que é ligado às pessoas de identidade negra é algo ruim e pejorativo. “Eles devem ser problematizados e salientados de forma que os estudantes, quando em contato com esses discursos, amplamente disseminados na sociedade da informação, estejam aptos a discuti-los, bem como a compreender as atitudes preconceituosas e racistas que os envolvem”.

Entre risos

A proposta das pesquisadoras foi trazer reflexões críticas, por meio do riso; dessa forma, memes que perpetuam uma atitude racista foram apresentados aos estudantes. Logo após o momento de interação e “zoação”, foi realizada a problematização e desconstrução de uma visão imposta pela sociedade, que coloca o negro como personagem sempre do cômico e do engraçado, reforçando o tom pejorativo de que o negro só serve para entreter.

A partir dessa intervenção, foi realizada a construção de memes que apresentavam uma visão contrária do original. “Os estudantes puderam perceber o quão problemático é compartilhar uma imagem sem refletir sobre o que ela pode ocasionar na vida de alguém”, explica Elivan.

O minicurso realizado contou com a participação de 25 estudantes que, por meio de narrativas relacionadas a situações de racismo, relataram o que vivenciaram ou presenciaram. “A finalidade foi fazer com que os futuros professores ressignificassem e passassem a ter um olhar mais atento para ações racistas em sala de aula e não compactuassem com o silenciamento frente a essas questões no ambiente escolar”, completa a pesquisadora.

O trabalho realizado resultou na atribuição de importância a essa discussão. “O maior desafio é a sensibilização do professor para compreender a importância de problematizar essas questões; às vezes, ele acha que é algo que pode ser resolvido no momento, como por exemplo, dizendo ‘não faça isso, fulano’, mas é algo pontual, demanda uma desconstrução e uma reconstrução. É necessário perceber a importância dessas discussõespara uma formação pessoal”, explica a professora Helena Maria Ferreira.

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Texto: Greicielle dos Santos - bolsistas / Dcom

Edição do Vídeo: Luiz Felipe - Dcom / UFLA

 

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