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Atropelamento de Mamíferos

Atropelamentos podem acelerar extinção de mamíferos, aponta pesquisa internacional liderada pela UFLA

Escrito por Comunicação UFLA | Publicado: Segunda, 13 Setembro 2021 14:10 | Última Atualização: Segunda, 13 Setembro 2021 14:10 | Acessos: 250
lobo guará no campo
Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) no Parque Nacional da Serra da Canastra, Minas Gerais, Brasil. Foto: Marcel Huijser

Mais de 120 espécies de mamíferos terrestres estão vulneráveis à morte por atropelamento e várias populações podem simplesmente entrar em extinção em 50 anos se persistirem os níveis de atropelamentos observados em uma pesquisa internacional do Instituto de Ciências Naturais da Universidade Federal de Lavras (ICN/UFLA) em parceria com o Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Lisboa.

De acordo a professora  do programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da UFLA Clara Grilo, que lidera uma equipe de 10 pesquisadores de diferentes continentes, primeiramente foi avaliado o impacto dos atropelamentos de espécies ameaçadas com registros de atropelamentos e de espécies não ameaçadas com as taxas mais elevadas de atropelamento, para 71  populações no mundo. Os pesquisadores  verificaram que, no Brasil, as  populações do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) e do gato-do-mato-pequeno (Leopardus gutulus) podem se extinguir  localmente se forem mantidos os níveis de atropelamentos observados. “Nós estimamos para o lobo-guará uma taxa de 0.08 indivíduos mortos por quilômetro ao ano (ind./km/ano) na rodovia MS-80, no Mato Grosso do Sul, de acordo com estudo publicado por Naria Carvalho e colegas em 2014. Levando em consideração a densidade estimada de 0.0364 indivíduos por km2, os atropelamentos nessa região podem corresponder a 36% da população e, consequentemente, a um aumento de 34% de risco de extinção”, afirma a docente.

Em seguida, com base nas características biológicas dessas 71 espécies e no grau de vulnerabilidade ao atropelamento, foram feitos modelos para pesquisar a vulnerabilidade de 4.677 espécies a nível mundial. O estudo mostra que 124 espécies são particularmente vulneráveis ao atropelamento, entre as quais estão incluídos a onça pintada (Panthera onca), o veado-catingueiro (Mazama gouazoubira), o macaco barrigudo (Lagothrix cana) e o coatá-da-testa-branca (Ateles marginatus), com registros regulares de atropelamentos no Brasil.

Ainda conforme os dados levantados, o gato-do-mato-pequeno possui uma estimativa de taxa de atropelamento de 0.09 ind./km/ano, de acordo com o estudo de JC Marocco, apresentado em 2012 para os 20 km da BR 282 entre os municípios de Nova Itaberaba e Chapecó, em  Santa Catarina. Com uma densidade populacional estimada entre 0.07 e 0.13 indivíduos por km2, a mortalidade por atropelamento pode representar entre 20 e 37% da população desses animais, e, consequentemente um aumento do risco de extinção entre 0 e 75%.

De acordo com o estudo, atualmente existem planos de expansão da rede viária para promover o comércio global futuro, especialmente em países emergentes da América Latina, Ásia, África e Europa. Essas novas infraestruturas, porém, devem ser um obstáculo para  os objetivos globais de sustentabilidade ambiental,  uma vez que essas estruturas rodoviárias irão cruzar áreas ambientalmente sensíveis, onde vivem diversas espécies ameaçadas. No Brasil, se todos os investimentos forem implementados como planejados, haverá um aumento de quase 20% de rodovias pavimentadas nos próximos 15 anos, deixando o risco de extinção mais evidente.

“Nosso estudo apresenta um ranking de vulnerabilidade das espécies ao risco de extinção devido ao atropelamento, o que permite que agências de infraestruturas rodoviárias, organizações não-governamentais e administração pública possam identificar, com base na áreas de distribuição das espécies, os segmentos de estradas que devem ser sujeitos a programas de monitoramento de atropelamentos para fornecer informação sobre a proporção da população atropelada e, desse modo, acionar as medidas mais adequadas para evitar que haja um aumento do risco de extinção local dessas populações”, comenta Clara Grilo.

Os resultados  da pesquisa foram publicados na revista científica Global Ecology and Biogeography.