El Niño pode atrasar chuvas e reduzir produtividade em Minas, alertam pesquisadores da UFLA
A possível ocorrência de um El Niño de forte intensidade a partir do segundo semestre de 2026 tem acendido um alerta no setor agrícola. Segundo projeções climáticas, o fenômeno pode provocar atrasos no início das chuvas e aumentar a irregularidade climática em Minas Gerais, com reflexos diretos na produtividade das principais culturas e impactos já no ciclo 2026/2027.
Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), os pesquisadores Felipe Schwerz e Gilberto Coelho alertam que os efeitos não devem se resumir à falta de chuva, mas principalmente à irregularidade climática. Schwerz explica que o fenômeno pode provocar atraso no início do período chuvoso, além de má distribuição das precipitações ao longo do ciclo das culturas. Coelho reforça que “o momento não é de maximizar produtividade, e sim de minimizar riscos”.
Caso o fenômeno se confirme com intensidade elevada, Minas Gerais pode enfrentar frequentes ondas de calor durante o inverno e atraso no início do período chuvoso, normalmente esperado na primavera, além de veranicos — intervalos secos em momentos críticos do desenvolvimento das lavouras. Também há previsão de maior concentração de chuvas no verão.
Esse conjunto de fatores tende a impactar diferentes culturas agrícolas. Café, milho, soja, cana-de-açúcar e até as pastagens estão entre as culturas que podem ser afetadas. "Estudos conduzidos na Universidade indicam que, com base em eventos anteriores de El Niño muito forte, há expectativa de queda significativa na produtividade agrícola", destaca Coelho.
Esse cenário pode gerar efeitos em cadeia, como aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e encarecimento da cesta básica, além de reduzir a rentabilidade do produtor rural. "Diante desse contexto, o foco do setor deve mudar. Em vez de buscar máxima produtividade, o momento exige estratégias voltadas à redução de riscos. Para pequenos produtores, a orientação é priorizar práticas de baixo custo e alto impacto", explica Coelho.
Os pesquisadores orientam a fazer o uso de plantio direto, manutenção de cobertura morta na superfície do solo para aumento da disponibilidade de água no solo, escolha de cultivares tolerantes ao déficit hídrico e acompanhamento constante de boletins meteorológicos para escolha do momento adequado para plantio e planejamento da colheita. O uso racional da irrigação, quando disponível, e a aplicação de tecnologias como bioestimulantes também podem contribuir para mitigar os efeitos do calor e da seca.
Coelho ressalta que a UFLA também tem investido no desenvolvimento de soluções voltadas à resiliência climática. Entre as iniciativas estão pesquisas com cultivares adaptadas, monitoramento do vigor vegetativo via sensores e estudos sobre manejo edáfico e hídrico voltados à melhoria das propriedades físico-hídricas do solo.


